O líder do partido Chega, André Ventura, anunciou em 23 de junho de 2025 uma investigação independente para apurar a suposta influência, o patrimônio e a rede de conexões do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil, Gilmar Mendes, em Portugal. Em uma publicação nas redes sociais, Ventura, figura proeminente da direita portuguesa, criticou o que considera uma proximidade indevida entre Mendes e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem acusou de promover práticas autoritárias no Brasil. A iniciativa do Chega reflete preocupações crescentes sobre a transparência nas relações entre figuras do Judiciário brasileiro e interesses políticos e econômicos, especialmente em eventos como o Fórum Jurídico de Lisboa, conhecido informalmente como “Gilmarpalooza”.
Ventura destacou que a investigação foi motivada por “milhares de denúncias” recebidas pelo partido, que apontam para uma suposta rede de influência de Mendes em Portugal. O evento anual em Lisboa, organizado pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), do qual Mendes é sócio-fundador, tem sido alvo de críticas por reunir ministros do STF, políticos brasileiros, empresários e autoridades portuguesas em um ambiente que, para críticos, mistura interesses acadêmicos com articulações políticas e econômicas. A edição de 2025, marcada para os dias 2 a 7 de julho, contará com a presença de seis ministros do STF, incluindo Luís Roberto Barroso, Alexandre de Moraes, André Mendonça, Dias Toffoli, Flávio Dino e o próprio Gilmar Mendes, além de representantes de empresas como BTG Pactual, Eletrobras e Light, que possuem processos em tramitação no STF.
O líder do Chega afirmou que o governo Lula mantém em Portugal “um lote grande de amigos que aparam seus golpes”, sugerindo que figuras como Mendes desempenham um papel de apoio a práticas que, segundo ele, transformam o Brasil em uma “ditadura”. Ventura, conhecido por seu discurso incisivo e por sua ascensão como terceira força política em Portugal, com 17% de apoio nas pesquisas de maio de 2025, já havia feito declarações polêmicas contra Lula, chegando a prometer, durante a campanha eleitoral de novembro de 2024, que o presidente brasileiro seria preso caso ele se tornasse primeiro-ministro. A investigação anunciada reforça a postura do Chega de combater o que considera influências externas e práticas políticas questionáveis, alinhando-se com valores de transparência e soberania que ressoam entre seus apoiadores.
As críticas ao “Gilmarpalooza” ganharam força devido à presença de figuras ligadas a processos judiciais no Brasil, como André Esteves, chairman do BTG Pactual, que teve um inquérito arquivado por Mendes em 2016. Embora os organizadores do fórum, incluindo a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o Lisbon Public Law Research Centre, afirmem que a escolha dos participantes segue critérios de relevância acadêmica e técnica, a participação de empresas e políticos com interesses no STF levanta questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse. Ventura argumenta que a investigação do Chega buscará esclarecer essas conexões, trazendo à tona eventuais irregularidades e promovendo maior accountability no relacionamento entre as elites brasileira e portuguesa.
A iniciativa do Chega ocorre em um momento de polarização política no Brasil, onde decisões do STF, incluindo as de Mendes, têm sido vistas por setores conservadores como excessivamente intervencionistas. A atuação do ministro, que já foi alvo de críticas por decisões como a concessão de habeas corpus ao banqueiro Daniel Dantas em 2008, reforça a percepção de que suas conexões internacionais merecem escrutínio. Ventura, ao liderar essa investigação, posiciona-se como defensor de uma postura crítica contra o que vê como abusos de poder e redes de influência que transcendem fronteiras, apelando a uma base que valoriza a independência judicial e a luta contra a corrupção.