No Dia Internacional da Mulher, professora surda de MS dá aula de superação

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O Dia Internacional da Mulher, comemorado hoje, 8 de março, foi criado em 1917 com o objetivo de celebrar a luta pelos direitos das mulheres em busca de uma sociedade mais justa e igualitária, entretanto os desafios ainda são muitos. Se a mulher já enfrenta dificuldades para ser inserida na sociedade, imagine os desafios que uma mulher surda encontra todos os dias, seja na escola, no trabalho ou em atividades comuns do dia-a-dia.

Helen Trefzger Ballock que hoje é técnica de aprendizagem da SED (Secretaria de Estado de Educação) teve uma trajetória de muitas lutas e dificuldades, até conquistar um lugar no mercado de trabalho e na sociedade como um todo. Ela foi a primeira surda de Mato Grosso do Sul a se formar em pedagogia.

Nada foi fácil na vida da professora. Ela nasceu surda, filha de pais ouvintes, e desde muito nova precisou ser resiliente. Quando começou a ser alfabetizada ainda não existia a Lei da Libras (Lei nº 10.436 – 24/04/2002) e, segundo ela, “as escolas não tinham estrutura para atender crianças surdas e os métodos de ensino não eram eficazes”. Helen, filha de pedagoga, teve na mãe a principal aliada na luta pelos direitos de aprender.

Ainda de acordo com Helen, seu processo de aprendizagem foi muito tumultuado. Ela chegou inclusive a reprovar, mas por persistência dela e da mãe, se manteve firme e cobrava dos professores que o atendimento em sinais fosse feito na escola.

“Minha mãe lutava por mim e também por outras crianças surdas. Ela foi minha intérprete na escola, se voluntariou e buscou melhorar minha qualidade de ensino”, diz Hellen.

Helen conta que sua mãe foi sua principal incentivadora a estudar. “Ela dizia, meu Deus! Minha filha surda, como vai fazer para arrumar um emprego? Precisa estudar”. Graças ao incentivo da mãe, Hellen fez prova de vários concursos e passou para assistente administrativo na área da Educação.

Ao contar sua história, Hellen sempre relembra como foi o período escolar. Ela relata que, na época, as professoras tinham dificuldade no atendimento ao estudante surdo. Para acompanhar os demais, era necessário copiar muitos conteúdos e a dedicação foi preponderante. A professora reforçou, ainda, que a mãe foi fundamental em todo o processo, presente na escola até como intérprete voluntária. Iniciativa que também beneficiou outras crianças.

Virada de chave

Antes de prestar vestibular para Pedagogia, Helen tinha o sonho de cursar Medicina Veterinária, mas por conta da surdez, ela não foi aceita no curso. “Eu amo os animais, meu sonho era ser veterinária, mas minha mãe me incentivou e me disse para eu adiar esse sonho, então eu comecei a fazer Pedagogia”, conta.

Protagonista na área, em 2004 ela se formou e, diante da necessidade de uma profissional surda no local onde já atuava, pediu exoneração do concurso administrativo e assumiu a função de professora no CAS (Centro de Capacitação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez).

Helen não parou por aí. Envolvida com o trabalho do Centro, ela se colocou como uma “multiplicadora” da Libras e também buscou ampliar os horizontes com outra formação, desta vez com uma faculdade de Letras/Libras. Hoje ela atua como Técnica do CAS no NAAD (Núcleo de Avaliação e Acompanhamento Didático).

Na atual função, Helen é responsável pelo atendimento de 125 estudantes surdos em todo o Estado, que recebem o acompanhamento dos intérpretes/tradutores. Além disso, a professora também coordena o trabalho de outros 105 profissionais, que exercem a função de apoio pedagógico especializado para estudantes surdos.

Mulher, professora e mãe

Há pouco mais de um ano, Helen enfrenta mais um desafio como mulher: desta vez no papel de mãe, com a chegada da filha Hilary, que é “Coda”, nome dado aos filhos ouvintes de pais surdos.

Com a novidade, a professora segue se adaptando ao mundo da maternidade. Orgulhosa e emocionada, ela conta que a filha, de um ano e meio, já sabe 11 sinais em Libras e sete palavras em português.

“Minha filha faz o sinal de cachorro e ela também fala a palavra ‘au-au’ se referindo ao cachorro. Ela vai crescer sabendo os dois idiomas e vai ser uma agente multiplicadora da Libras, como eu fui”, finaliza Helen.

Jackeline Oliveira, Comunicação SED