A recente decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros exportados, a partir de 1º de agosto de 2025, gerou forte reação no Congresso Nacional. A medida, justificada por Trump como resposta ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) e a supostas práticas comerciais desleais do Brasil, foi interpretada por parlamentares de diferentes espectros como um desafio à soberania nacional. No entanto, enquanto alguns defendem uma resposta diplomática e unificada, outros, especialmente da oposição, intensificaram críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chegando a propor a abertura de um processo de impeachment.
A tarifa anunciada por Trump, formalizada em carta enviada ao presidente Lula, foi classificada por aliados do governo como uma tentativa de interferência nos assuntos internos brasileiros. O líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), afirmou que a medida exige unidade nacional, destacando que “não pode haver polarização quando o país é atacado. Somos uma nação soberana, e conspirar contra o Brasil em território estrangeiro é inadmissível”. Já o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), senador Renan Calheiros, reforçou que o Brasil possui instrumentos legais, como a Lei da Reciprocidade Econômica, para responder a barreiras comerciais, sugerindo uma postura firme, porém equilibrada.
Por outro lado, parlamentares da oposição, alinhados ao ex-presidente Bolsonaro, atribuíram a imposição da tarifa à condução da política externa do governo Lula e às decisões do STF, que julga Bolsonaro por suposta tentativa de golpe de Estado após os eventos de 8 de janeiro de 2023. O senador Eduardo Girão (Novo-CE) declarou que “a perseguição política e as restrições à liberdade de expressão no Brasil contribuíram para essa crise diplomática”. Ele sugeriu que o Senado deveria considerar o impeachment de autoridades que, em sua visão, desrespeitam a Constituição, incluindo o presidente Lula, como forma de reverter o cenário de tensão com os Estados Unidos. O senador Marcos Pontes (PL-SP) complementou, argumentando que o governo “optou por antagonizar os EUA, o que agora prejudica diretamente a economia brasileira”.
A proposta de impeachment de Lula ganhou tração entre deputados e senadores de oposição, que enxergam na crise uma oportunidade para questionar a liderança do presidente. O deputado Carlos Jordy (PL-RJ) publicou que a tarifa reflete “a perseguição a Bolsonaro”, enquanto o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, criticou o que chamou de “desgoverno de Lula”. Nas redes sociais, figuras como o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e o senador Cleitinho (Republicanos-MG) reforçaram a narrativa de que a política externa ideologizada de Lula teria levado à retaliação americana, com Zema afirmando que “o Brasil paga o preço por priorizar ideologia em vez de pragmatismo econômico”.
A polarização no Congresso reflete o impacto da tarifa no setor produtivo, especialmente em áreas como agronegócio, carnes, soja e calçados, que dependem fortemente das exportações para os EUA, o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Dados da Organização Mundial do Comércio (OMC) indicam que as exportações brasileiras para os EUA representam cerca de 11,4% do total, equivalente a menos de 2% do PIB nacional. Apesar do impacto econômico limitado, a medida foi vista como um golpe simbólico, intensificando o debate político interno.
O governo brasileiro, por sua vez, sinalizou uma resposta cautelosa. Lula afirmou que buscará negociações com os EUA, mas não descartou retaliar com base na Lei da Reciprocidade Econômica, que permite contramedidas como tarifas sobre produtos americanos ou restrições em setores como propriedade intelectual. O Itamaraty convocou o encarregado de negócios dos EUA, Gabriel Escobar, para esclarecimentos, e a embaixadora Maria Luisa Escorel classificou a carta de Trump como “ofensiva” e repleta de “erros factuais”.
Enquanto o governo enfatiza a defesa da soberania, a oposição insiste que a crise reflete falhas de gestão e política externa, alimentando a discussão sobre o impeachment de Lula. Parlamentares como a senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra de Bolsonaro, defenderam a diplomacia como solução, sugerindo que “calma e equilíbrio são essenciais para proteger os interesses brasileiros”. Já o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), criticou Lula por “colocar ideologia acima da economia”, ecoando o sentimento de que o governo falhou em evitar a escalada da crise.
A situação permanece tensa, com o Congresso dividido entre a busca por uma resposta coordenada e a exploração política da crise. A possibilidade de impeachment, embora mencionada, enfrenta obstáculos significativos, como a necessidade de amplo apoio político e jurídico no Legislativo, mas reflete o grau de polarização que a decisão de Trump desencadeou no Brasil.