Na 66ª Cúpula do Mercosul, realizada em Buenos Aires em 3 de julho de 2025, o presidente argentino Javier Milei passou a presidência rotativa do bloco ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, mas não sem antes expressar duras críticas ao funcionamento do Mercado Comum do Sul. Milei descreveu o Mercosul como uma “cortina de ferro” que restringe a liberdade econômica de seus membros, argumentando que o bloco falhou em cumprir seu objetivo original de promover prosperidade regional. “Propusemos um esquema comercial mais livre, onde cada país possa aproveitar suas vantagens comparativas, mas, se isso não for possível, a Argentina seguirá sozinha”, declarou, sinalizando a possibilidade de abandonar o tratado caso suas demandas por maior flexibilidade não sejam atendidas.
Um dos pontos centrais do discurso de Milei foi o combate ao crime organizado, que ele classificou como um “câncer” que ameaça a segurança da América do Sul. Ele destacou a expansão de facções criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho, que, segundo ele, estão se infiltrando em outros países do bloco. “Se essas facções se consolidarem, toda a região estará em perigo”, alertou. Milei cobrou do Brasil, agora à frente da presidência do Mercosul, ações concretas contra o narcotráfico transnacional e propôs a criação de uma agência regional dedicada a coordenar esforços de combate ao crime organizado. Ele enfatizou que a próxima liderança, sob comando brasileiro, deve priorizar a segurança para proteger os cidadãos da região.
Milei também defendeu a modernização do Mercosul, com redução da Tarifa Externa Comum (TEC) e maior autonomia para os países negociarem acordos comerciais bilaterais, como um possível pacto com os Estados Unidos. Ele agradeceu o apoio dos membros à reivindicação argentina pela soberania das Ilhas Malvinas, reforçando a importância de questões nacionais em sua agenda. Durante sua presidência de seis meses, a Argentina avançou em negociações com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) e conseguiu exceções na TEC, mas Milei insistiu que o bloco precisa de mudanças profundas para não se tornar um obstáculo ao progresso econômico.
A transferência da presidência ocorreu em um clima de tensões diplomáticas. Lula, em seu discurso, defendeu o Mercosul como um “refúgio” que protege os países de guerras comerciais globais, como as tarifas impostas pelos EUA, e delineou prioridades como a conclusão do acordo com a União Europeia e maior aproximação com a Ásia. As visões opostas de Milei e Lula evidenciam divergências fundamentais: enquanto o argentino busca liberalizar o comércio e reduzir a burocracia do bloco, o brasileiro aposta na integração regional e em agendas sociais. A ausência de uma reunião bilateral entre os dois líderes, somada à visita de Lula à ex-presidente argentina Cristina Kirchner, opositora de Milei, reforçou o distanciamento pessoal entre eles.
A postura de Milei reflete sua visão de que a liberdade econômica e a segurança são pilares essenciais para o desenvolvimento, desafiando estruturas que, em sua opinião, beneficiam apenas elites econômicas e políticas. Sua cobrança por ações contra o crime organizado destaca a urgência de proteger as fronteiras e os cidadãos, colocando pressão sobre o Brasil para liderar esforços regionais eficazes.