Nos últimos meses, a Faixa de Gaza tem sido palco de crescentes tensões entre grupos armados locais e o Hamas, organização que governa o território desde 2007. Esses grupos, alguns dos quais com apoio declarado de Israel, têm se engajado em operações para enfraquecer o controle do Hamas, incluindo ataques diretos a seus membros e a infraestrutura de ajuda humanitária. A escalada de conflitos internos reflete um cenário de instabilidade agravado pela guerra com Israel, que enfraqueceu a autoridade do Hamas e abriu espaço para o fortalecimento de clãs e milícias locais, muitas vezes ligados a atividades criminosas, como o roubo de suprimentos de ajuda.
Um dos grupos mais proeminentes é a milícia liderada por Yasser Abu Shabab, conhecida como Forças Populares ou Serviço Antiterrorismo, que opera principalmente em Rafah, no sul de Gaza. Segundo fontes, incluindo a Associated Press e o The Times of Israel, Israel tem fornecido armas, como fuzis Kalashnikov confiscados do Hamas, a esse grupo com o objetivo de minar a influência do Hamas no território. Abu Shabab, que já esteve preso pelo Hamas por tráfico de drogas antes da guerra de outubro de 2023, reorganizou sua milícia e assumiu o controle de centros de distribuição de ajuda humanitária apoiados por Israel e pela Gaza Humanitarian Foundation, uma entidade americana. No entanto, trabalhadores humanitários e a ONU acusam a milícia de saquear caminhões de ajuda, agravando a crise de alimentos e suprimentos em Gaza, onde um pacote de farinha pode custar mais de US$ 200.
O Hamas, por sua vez, respondeu com a reativação de sua unidade especial, chamada Força Flecha (Arrow Unit), composta por policiais e voluntários à paisana, com a missão de combater saques e restaurar a ordem. De acordo com o Mondoweiss e o The Guardian, a Força Flecha já matou pelo menos 50 membros da milícia de Abu Shabab nos últimos meses, incluindo seis em um ataque em Rafah no início de junho de 2025. O Hamas também acusou Israel de proteger Abu Shabab, apontando um ataque de drone israelense em 10 de junho que matou quatro de seus combatentes para defender a milícia rival. Em um comunicado, o Hamas declarou que perseguirá “traidores” como Abu Shabab, independentemente da proteção israelense, intensificando a retórica de confronto interno.
Os conflitos entre esses grupos e o Hamas são alimentados por um vácuo de poder causado pela ofensiva militar israelense, que matou líderes importantes do Hamas, como Yahya Sinwar, em outubro de 2024, e Mohammed Deif, em julho de 2024, segundo o Wikipedia. A perda de figuras-chave e a destruição de parte da infraestrutura do Hamas enfraqueceram sua capacidade de manter o controle, permitindo que clãs armados, historicamente reprimidos pelo grupo, ganhassem espaço. Esses clãs, que têm raízes em estruturas familiares e tribais, muitas vezes operam como gangues envolvidas em contrabando de cigarros, drogas e armas através de túneis na fronteira com o Egito. Apesar de alguns líderes tribais terem condenado a cooperação com Israel, a milícia de Abu Shabab, com cerca de 100 a 300 membros, continua a operar com o aval tácito das forças israelenses, especialmente na área de Kerem Shalom, conforme relatado pelo The Washington Post.
A situação é agravada pela crise humanitária em Gaza, onde a escassez de alimentos e bens essenciais tem levado a saques violentos. Relatos da BBC e da ONU indicam que gangues armadas, incluindo a de Abu Shabab, operam à vista das forças israelenses, que não intervêm, levantando suspeitas de conivência. Em um incidente em novembro de 2024, quase 100 caminhões da ONU foram saqueados, resultando na morte de motoristas palestinos. O Hamas, tentando recuperar a legitimidade, intensificou suas operações contra essas gangues, mas enfrenta dificuldades devido à repressão israelense, que já matou dezenas de membros da Força Flecha, segundo o Mondoweiss.
A estratégia de Israel de armar grupos anti-Hamas, confirmada pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em 5 de junho de 2025, conforme o NPR, visa reduzir as baixas de soldados israelenses e desestabilizar o Hamas, mas analistas alertam para o risco de uma guerra civil em Gaza. A armação de milícias como a de Abu Shabab, que já foi acusada de ligações com grupos jihadistas, levanta preocupações sobre a proliferação de armas e a possibilidade de que esses grupos se voltem contra Israel no futuro, como alertou o ex-ministro da Defesa Avigdor Lieberman, citado pelo The Times of Israel. Enquanto isso, a população de Gaza enfrenta preços exorbitantes no mercado negro e uma crise humanitária sem precedentes, com a instabilidade interna ameaçando agravar ainda mais a situação.