A recente escalada de tensões entre Irã, Israel e os Estados Unidos, marcada por ataques a instalações nucleares iranianas, colocou a Rússia em uma posição delicada. Em meio a expectativas de apoio iraniano, o presidente Vladimir Putin justificou a postura neutra de Moscou, destacando a presença de cerca de dois milhões de russófonos em Israel, muitos dos quais são imigrantes da antiga União Soviética. Essa declaração, feita durante o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo em 20 de junho de 2025, reflete a complexidade das relações russas no Oriente Médio, equilibrando alianças estratégicas e considerações internas.
A Rússia mantém laços históricos com o Irã, reforçados por um tratado de parceria estratégica assinado em janeiro de 2025 e pela cooperação em projetos como a usina nuclear de Bushehr, onde especialistas russos trabalham. No entanto, Putin enfatizou que o acordo não inclui cláusulas de defesa mútua, e Moscou não recebeu pedidos formais de assistência militar de Teerã. Em encontro com o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, em 23 de junho, Putin condenou os ataques dos EUA e de Israel como “agressão injustificada”, mas limitou-se a prometer apoio humanitário ao povo iraniano, sem comprometer ações concretas.
A comunidade russófona em Israel, composta por cerca de 15% da população do país, é um fator significativo na política externa russa. Esses imigrantes, que chegaram em grande número após o colapso da URSS, mantêm laços culturais e familiares com a Rússia, influenciando a cautela de Moscou em conflitos envolvendo Israel. Além disso, a Rússia busca preservar relações com nações árabes e islâmicas, onde 15% de sua própria população é muçulmana, o que reforça sua abordagem diplomática de neutralidade.
Por outro lado, o Irã, que forneceu drones à Rússia durante o conflito na Ucrânia, esperava maior respaldo. Fontes iranianas, citadas pela Reuters, expressaram insatisfação com a resposta russa, mas não detalharam que tipo de apoio buscavam. Enquanto isso, Putin tentou posicionar a Rússia como mediadora, propondo ideias para um cessar-fogo, embora essas iniciativas tenham sido rejeitadas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que priorizou exigir a rendição iraniana.
Críticos dentro da Rússia apontam que a neutralidade de Putin reflete uma perda de influência regional, especialmente após a queda do aliado sírio Bashar al-Assad em dezembro de 2024. Um ex-diplomata russo, em entrevista ao The Moscow Times, sugeriu que o Kremlin subestimou a dinâmica do conflito, deixando Moscou sem ferramentas para intervir decisivamente. Apesar disso, a Rússia continua a alertar contra os riscos de uma catástrofe nuclear, com o CEO da Rosatom, Alexei Likhachev, comparando um possível ataque à usina de Bushehr ao desastre de Chernobyl.
A postura de Moscou, portanto, é moldada por uma combinação de pragmatismo e interesses domésticos. Ao evitar um envolvimento direto, a Rússia protege seus cidadãos em Israel, mantém canais abertos com todas as partes e preserva sua imagem como potência mediadora, ainda que com resultados limitados até o momento.