Em um giro surpreendente, o Irã, que há menos de dois dias prometia “abrir as portas do inferno” e rejeitava categoricamente qualquer acordo, agora sinaliza um desejo de encerrar as hostilidades com Israel e retomar negociações com os Estados Unidos sobre seu programa nuclear. Mensagens enviadas por meio de intermediários árabes, notadamente o Qatar, indicam que Teerã busca uma saída diplomática para a escalada militar iniciada em 13 de junho de 2025, quando Israel atacou instalações nucleares iranianas. A mudança de postura, que contrasta com a retórica beligerante recente, expõe a fragilidade do regime iraniano diante da pressão militar e das sanções internacionais.
O conflito, que já deixou mais de 500 mortos, segundo estimativas independentes, e danificou infraestruturas cruciais no Irã, como as usinas nucleares de Natanz, Fordow e Esfahan, parece ter forçado Teerã a reconsiderar sua estratégia. As ameaças do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, de retaliar duramente contra Israel e os EUA, não se materializaram em ações significativas. Em vez disso, o Irã, que viu sua capacidade de resposta reduzida após a perda de comandantes militares e cientistas nucleares, agora apela à diplomacia, utilizando canais indiretos para evitar uma humilhação pública. A mediação do Qatar, que abriga a base americana de Al Udeid, destaca o papel de atores regionais na tentativa de conter a crise.
As mensagens iranianas, conforme relatado por fontes diplomáticas ao The Wall Street Journal, expressam disposição para negociar um novo acordo nuclear, semelhante ao Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA) de 2015, abandonado pelos EUA em 2018. Teerã sugere manter o enriquecimento de urânio em níveis baixos, desde que sanções sejam aliviadas e Israel interrompa seus ataques. No entanto, a proposta enfrenta ceticismo, dado o histórico de descumprimento de compromissos pelo Irã e sua insistência em enriquecer urânio a 60%, um nível próximo ao necessário para armas nucleares, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). A AIEA, aliás, reiterou que não há evidências de um programa militar nuclear ativo no Irã desde 2003, mas a falta de transparência alimenta desconfianças.
A iniciativa iraniana ocorre após os EUA, sob o comando do presidente Donald Trump, intensificarem sua participação no conflito, bombardeando três instalações nucleares iranianas em 21 de junho de 2025. Trump, que inicialmente deu um prazo de duas semanas para um acordo, surpreendeu ao autorizar os ataques em apenas dois dias, descrevendo a operação como um “sucesso espetacular”. O bombardeio, que incluiu o uso de bombas penetradoras de alta potência, expôs as vulnerabilidades das defesas iranianas, que falharam em detectar os aviões americanos. Analistas apontam que a entrada direta dos EUA no conflito, aliada à superioridade militar israelense, deixou o Irã com poucas opções além de buscar negociações.
A mudança de tom de Teerã também reflete pressões internas. O regime enfrenta crescente descontentamento popular, agravado por sanções econômicas e pela devastação causada pelos ataques. Enquanto milícias pró-governo, como a Basij, prometem resistência, muitos iranianos, segundo relatos da BBC, esperam que a crise enfraqueça a liderança clerical. A destruição de alvos estratégicos, como a sede da Basij e a prisão de Evin, atingida por um drone, intensificou o clima de instabilidade em Teerã, com cortes de energia e fuga de moradores.
Embora o Irã tente agora projetar uma imagem de abertura ao diálogo, sua credibilidade é questionada. A suspensão de negociações nucleares em 15 de junho, após acusar os EUA de cumplicidade com Israel, e a retórica inflamada de Khamenei sugerem que as promessas atuais podem ser uma tática para ganhar tempo. A proposta de cessar-fogo, intermediada pelo Qatar, foi inicialmente aceita por ambos os lados em 23 de junho, mas violações mútuas, incluindo disparos de mísseis iranianos contra Israel, indicam a fragilidade do acordo. Trump, por sua vez, mantém a pressão, exigindo que o Irã abandone completamente o enriquecimento de urânio, uma condição que Teerã considera inaceitável.
A postura oscilante do Irã, que alterna entre ameaças grandiloquentes e apelos por diplomacia, revela um regime acuado, incapaz de sustentar sua retórica belicosa frente à realidade militar e econômica. Enquanto as negociações avançam, a comunidade internacional, incluindo o Brasil, que condenou os ataques às instalações nucleares, defende uma solução diplomática para evitar uma crise nuclear e preservar a estabilidade regional.