Ataques vindos da base e isolamento do Executivo revelam que, sem diálogo com vereadores, nenhuma gestão se sustenta.
A sessão de abertura do ano legislativo de 2026, na Câmara Municipal de Dourados, expôs um cenário de desgaste político para o prefeito Marçal Filho (PSDB) logo no início do segundo ano de mandato. O sinal mais evidente veio de dentro da própria base, com críticas públicas da vereadora Isa Marcondes (Republicanos), até então uma das principais aliadas do governo.
Da tribuna, Isa afirmou que sua permanência na base está “à disposição” do prefeito, após relatar que foi retirada do Conselho Municipal de Saúde depois de cobrar providências e apontar falhas na gestão de contratos da área. A fala foi interpretada nos bastidores como um indicativo claro de afastamento.
Em tom duro, a vereadora afirmou que o prefeito precisa “parar de catar galhos” e se dedicar à condução do Executivo, defendendo que apenas com comando e gestão efetiva será possível melhorar os serviços prestados à população. A declaração evidenciou o grau de insatisfação interna com a forma como a administração vem sendo conduzida.
Minutos antes, Marçal havia deixado o plenário após apresentar um balanço do primeiro ano da administração. O discurso seguiu a linha adotada desde o início do mandato, com explicações sobre entraves burocráticos e projeções futuras. Um dos pontos citados foi a licitação da iluminação pública, apresentada como entrave para resolver problemas estruturais da cidade.
O que não foi mencionado é que o procedimento foi determinado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), conforme publicação em edição extra do Diário Oficial da Corte, em 20 de agosto.
Na sequência, Isa confrontou a versão apresentada pelo prefeito e voltou a criticar a condução administrativa, especialmente na área da saúde. Falta de ambulâncias, demora na realização de exames e dificuldades no atendimento foram citadas como exemplos de problemas que, segundo ela, seguem sem solução.
As obras citadas como entregues durante o balanço apresentado no plenário, assim como a distribuição dos materiais escolares no primeiro dia de aula de 2025, dizem respeito a projetos iniciados na gestão anterior. As ações foram viabilizadas com recursos do Fonplata e com aquisições feitas pela administração passada.
O clima de desgaste não ficou restrito à fala da vereadora. O vice-presidente da Câmara, Inspetor Cabral (PSD), também utilizou a tribuna para criticar a relação entre o Executivo e o Legislativo. Segundo ele, secretários municipais têm deixado de atender vereadores, ignorando requerimentos, indicações e pedidos formais de reunião.
A falta de interlocução com a Câmara compromete a relação institucional e corrói a governabilidade. Na prática, sem diálogo com o Legislativo, nenhuma gestão consegue se sustentar politicamente por muito tempo.
O episódio revela um início de ano legislativo marcado por tensão, dificuldades de articulação e sinais de fragilidade da base governista. Em política, quando as críticas passam a vir de dentro, o problema costuma ir além do discurso.
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