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Fábula - O Falcão e a Lebre -

Fábula - O Falcão e a Lebre - Nycolas Cortez - Foto Ilustração

Cultura
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               O FALCÃO E A LEBRE

             Havia uma grande e próspera região, na qual quatro belas fazendas foram fundadas e muito enriqueceram em consequência da fertilidade e do bom clima; destas, a primeira era a mais rica. Esplendorosos pavões, robustos cavalos, gordas galinhas, centenas de fortes bovinos e uma promissora criação de lebres compunham a maior parte da riqueza da fazenda.

            Belas e esbeltas, as lebres eram a atração entre todos os animais. No entanto, uma lebre, maior e mais gorda que as demais, se destacava dentre as outras de sua espécie por sua beleza e graciosidade incomuns. Acontece que o dono da propriedade tinha feito uma miscigenação unindo duas raças de lebre totalmente distintas, resultando no nascimento daquele belíssimo animal, nitidamente e sem dúvida cobiçada pelos predadores que rondavam sempre a área aguardando qualquer ínfima chance de tê-la para si, entretanto não possuíam a insensatez necessária para enfrentar os ferozes cães de caça que protegiam o território, em especial as duas cadelas de caça que ficavam, sem exceções, guardando a lebre nas frequentes ocasiões em que esta saía da fazenda a fim de passear e se divertir pelo campo ou sob as árvores, geralmente das 9:30 da manhã ás 9:45.

            Mal sabiam os animais da fazenda, e muito menos o dono, que um curioso predador vigiava sigilosamente a lebre desde o ano retrasado, no mais discreto desejo de ter uma boa refeição: um jovem e esguio falcão. Se ele não se aproximava da fazenda o suficiente para ser visto, no mínimo passava seus olhos perscrutadores pelo campo ou pelas moitas no intuito de ao menos avistá-la de longe, o que já o estava cansando, dando-lhe o ímpeto interior de dar fim áquela observação inútil e tentar a sorte numa caçada ao animal, como se um fogo íntimo tivesse se acendido no seu coração; pois tinha consciência de que se não agisse logo, perderia a presa para outro predador. Não que tivesse alguma ideia sobre haver um puma ou um lobo interessado, todavia, nos últimos meses, em muito ponderava na mente acerca disso, ciente que um ser tão grande e belo decerto atrairia outros pretendentes pelo banquete com a mesma facilidade que um trono vazio atrai muitos competidores cobiçosos pelo poder.

            Então o falcão pôs-se a agir, munido, principalmente, de sua astúcia.

          A primeira atitude sua foi vigiar melhor a lebre. Óbvio. E não é que ele realmente conseguiu, certo dia, flagrar seu alvo pulando solitário por entre a grama  sob o Sol matinal? Infelizmente nada deu como planejava dar; uma das cadelas apareceu e levou-a embora para a fazenda.

            No decorrer de algumas semanas uma nova oportunidade surgiu-lhe, para o seu regozijo: a lebre tornou a andar desacompanhada pelo campo aberto, apenas junto das outras de sua espécie. O falcão teve o seu instinto de caçador atiçado naquele instante; voou apressadamente ao seu encontro preparado para capturá-la, mas por um golpe fortuito do destino surgiu um cão de caça da fazenda e, como ocorrera antes, a levou embora. O falcão se abrasou de frustração.

            “Porque só ela foi embora?”, pensava a ave de rapina, “Todas ainda estão lá dando sopa enquanto ELA foi embora junto com o cão. Eu não mereço isso.” Sua raiva abrandou quando viu que outras lebres também foram levadas de volta; a maioria permaneceu por bastante tempo, até dar 11: 25 – horário em que regressavam para comer – mas nenhuma despertava o mais vago interesse no falcão.  

            Certa vez ele chegou a confessar a dois lobos seu interesse nesta lebre – os quais o falcão tinha certeza de não estarem com o olhar em cima dela.

            - É mesmo? – perguntou um deles, um lobo branco de olhos marrons – Que coisa. Até que você tem bom gosto.

- Ah, seu safado! – disse o outro, o mais bobo da dupla – Quer dizer que você gosta...

- PAREM com isso – bradou o falcão – Estou falando sério.

- Uiii, irritado – falou o lobo branco – Não quer admitir a verdade.

- Não precisa mentir – disse o outro lobo – Eu conheço aquela lebre, pode acreditar.

- É verdade isso? – o falcão se mostrava incrédulo. “Uma de suas gracinhas. Mais uma e eu vaso daqui.”

- Sim – respondeu o lobo na mais verossímil sinceridade que sua cara despida de seriedade conseguia exibir  – Bem sei de sua beleza. Conheço ela.

- Desde quando? – precisava ter conhecimento acerca daquilo. “Se for um cara de pau querendo roubar o que estou prestes a conseguir, ele vai ver.”

- Desde alguns anos atrás, quando ela ainda era um filhote – Os pelos encaracolados do lobo moviam-se ao vento.

- Interessante.

- E o que você vai fazer para obter...digamos... a sua lebre?

-É – disse o lobo branco. Os dois já perdiam novamente o tom sério da conversa – O que fará? Não pode ficar parado e esperar demais. Ouvi rumores e sussurros por aí dizendo que as matilhas de lobos e os pumas tem estado á espreita com mais voracidade que o normal. E claro: uma presa tão bela e grande será o primeiro alvo deles.

- Fomos – disse o outro. E uivou. O lobo branco de olhos marrons o imitou e correu para longe junto ao companheiro, céleres e á flor de sua tenra juventude.

“Demorei demais”. O falcão sobrevoou aquelas redondezas pensativo sobre o assunto que titubeava na sua cabeça e a impregnava de tal modo a fazê-lo se concentrar tanto naquilo a ponto de esquecer o mundo em volta. De qualquer jeito os lobos tinham plena razão no que proferiram: os predadores estavam de fato mais atentos áquele território ultimamente, com certeza devido a implacável destruição das florestas donde, desde eras imemoriais, tiravam todo o seu sustento. Portanto não se admirava em saber que em breve as fazendas poderiam estar sitiadas de seres famintos e sedentos por carne e espaço, numa infinita e antiga disputa por lugares onde viver.

Foi num dia desses que ele voltou a divagar sobre que decisão tomaria, pois necessitava dar um desfecho a tudo aquilo o quanto antes em vez de só observar e não agir. Empoleirado num galho baixo de junípero viu uma jovem loba de pelagem negra repousando recostada ao tronco duma árvore. Começou, então, a conversar com ela após lhe chamar uma vez com toda cortesia que possuía. Acabou por também revelar, de novo, sua secreta intenção relacionada ao bicho de estimação do fazendeiro, ao que a loba riu e disse:

- Boa sorte para você, espero que não caia na boca das cadelas de caça. Estas são tão ferozes quanto o resto dos cães que patrulham a área.

- Isso percebi há muito. De fato a guarda tem se estreitado nesses cantos, mas o que me carece é uma dose de ousadia, visto minha coragem ausente – Sorriu e levantou voo,  retornando ás suas divagações durante o seu passeio matinal diário.

Em determinada ocasião, tempos depois, algo muito estranho e incoerente aconteceu com o falcão enquanto estava ciscando o solo gramado sob uma densa moita numa manhã qualquer: as cadelas de caça surgiram de repente e o chamaram aos latidos.

- Ô, é verdade que você olha para a lebre? – perguntou uma delas, de pelagem branca, a qual tornava-se preta na região da cabeça.

Ambas tinham uma expressão risonha.

- Pode confessar, somos da guarda dela – disse a segunda, mais risonha que a outra. Tinha uma cabeça menor que a da companheira e uma lisa e volumosa pelagem castanha.

Surpreso, o falcão respondeu timidamente.

- Eu, eu ... sim – “A  loba”. Ela era a única suposta delatora, considerando improvável que os lobos o tivessem feito; precisava enfrentar a situação com valentia. Com valentia de falcão – Como vocês sabem? Foi a loba, não é?

- Não – respondeu a  branca – É que você fica olhando para a lebre.

- Permitam que eu voe um pouquinho para esfriar a cabeça. Depois volto – As cadelas riram ao observar o falcão se afastar rapidamente num vôo desabitual, sumindo por entre a vegetação.

“O que será que elas sabem?”. A única forma daquelas duas criaturas descobrirem seu segredo era através da loba, seria impossível elas o terem avistado na fazenda ou voando nos arredores com a tamanha furtividade com que agia nessas situações e era ainda mais ilógico saberem qual lebre observava. Tudo muito exato para que pudessem concluir por si só.

Não se encontrou com elas por muito tempo.

Três dias depois se reencontrou com a loba e, claro, ela negou quando o falcão perguntou se havia falado demais. Vendo a ave que seria inútil tentar arrancar dela algo mais, contentou-se com o que escutou e se foi, decidido a agir o quanto antes para obter a lebre para si, visto que pressentia que em breve seria tarde para tal. Dirigiu-se ao campo ao lado da fazenda aonde a lebre gostava de passear e avistou-a pulando despreocupadamente entre moitas, sem a proteção das cadelas num ponto distante de onde morava. ”Agora sim! Minha chance, hoje ou nunca.” Voou na direção da presa com as asas e o corpo em posição de ataque e as garras preparadas; desceu, desceu e se aproximou dela; entretanto, por azar ou por culpa do destino, quando ia agarrá-la pelas costas no instante que ela o viu, um puma feroz emergiu do mato próximo, deu uma patada no corpo do falcão e o derrubou no gramado.

Pensou que este seria o seu fim, mas o puma nada fez além de abocanhar a lebre e fugir para longe dali com ela. O falcão, outra vez, frustrou-se. No entanto a sorte o favoreceu por ser a lebre e não ele a vítima do terrível predador. Durante os dias seguintes a esse imprevisto o falcão somente contornou e sobrevoou  a fazenda mal ocultando sua grande decepção a quem quer que o visse.

Mas certo dia, no fim da manhã, acabou por dar de cara com o puma enquanto capturava uma minhoca na terra. Assustou-se a princípio, porém logo se apazigou quando o felino mostrou-se desintencionado a perseguí-lo. O falcão aproveitou a oportunidade para perguntar:

- Puma, puma! Porque tu fizeste aquilo a mim, me tomando o que era meu? – sua voz era simultaneamente ousada e respeitosa.

O puma o fitou com uma expressão duvidosa.

- Como assim? – disse o felino – Ela jamais teve nada de seu.

- Tinha sim. Eu tinha tudo para dar certo mas você me roubou.

- Não, nunca roubaria nada de ninguém. Na verdade há muito eu sabia que você olhava para ela, ou acha que não sou esperto também? A verdade é que eu já estava de olho nessa mesma lebre bem antes de você, antes mesmo das cadelas a conhecerem. Quando a contemplei pela primeira vez anos atrás, ela era só um filhote recém-nascido. Temi que outro predador a tomasse de mim e agi antes disso acontecer.

- Eu pensava o mesmo.

- Viu só? Estamos iguais – O puma falaria mais se o falcão não tivesse voado dali, impaciente de ouvir palavras que nada mudariam o ocorrido.

“Hei de me recuperar”. Acreditava poder encontrar outra lebre ou alguma presa melhor, apesar de parecer improvável isso acontecer. Mesmo assim permaneceu firme no seu intento, convicto a agir mais rápida e eficazmente da próxima vez. “Nenhum ser vivo vai me frustrar.”

 

NYCOLAS CORTEZ.